Wednesday, August 20, 2003:::
JORNAL DE BRASÍLIA 20/08/03 BRASIL
Educadores já notam resistência
Nem chegou às escolas – muito menos às de Brasília – o projeto dos Ministérios da Educação e da Saúde para distribuir camisinhas a estudantes da rede pública de ensino já coloca uma série de dúvidas na cabeça de quem convive diariamente com a garotada nos colégios.
Professores e especialistas em educação sexual questionam se os educadores brasileiros estão preparados para orientar os adolescentes na hora de distribuir os preservativos e, o que é pior, se saberão lidar com os pais dos jovens. E acreditam que os dois ministérios terão de lutar muito para reduzir a resistência que existe em torno do assunto.
A orientadora educacional Lúcia Helena Marques cita um exemplo dessa resistência. Em 2002, um projeto de orientação sexual realizado por ela no Centro de Ensino 6, em Taguatinga, foi escolhido o melhor do País pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Ao tentar implementar a iniciativa em outro centro de ensino, entretanto, a proposta não teve sucesso. "Os professores não acataram a idéia", lamenta.
Enquanto isso, o número de casos de adolescentes com Aids no Brasil aumenta. Segundo o Ministério da Saúde, 5,6 mil jovens com idade entre 13 e 19 anos estão infectados pelo vírus HIV. O número de casos de gravidez precoce também assusta. Foram cerca de 211 mil partos e mais de 219 mil abortos entre 1999 e abril deste ano, de adolescentes entre 10 e 19 anos.
A professora de biologia Cláudia Jovita, do Colégio Elefante Branco, na Asa Sul, acredita na eficácia de um programa de orientação sexual, mas aponta dois obstáculos: a falta de orientadores capacitados e a necessidade de continuidade do projeto.
Wednesday, July 23, 2003:::
GAZETA DO POVO (PR) 22/07/03 BRASIL
SAúDE-Ministro Humberto Costa divulga metas para o Programa Nacional de DST–Aids até 2006
População de baixa renda terá prioridade no combate à aids
Governo estima que 600 mil pessoas estão infectadas pelo HIV, mas a metade não sabe
Brasília (AF) – Após conseguir avanços significativos na prevenção e tratamento de casos de aids, o Brasil vai priorizar ações voltadas à população de baixa renda, mulheres e jovens, além de tentar reduzir ainda mais as mortes e ampliar os exames para diagnóstico do HIV, vírus causador da doença.
Essas medidas, divulgadas ontem em Brasília, estão entre as metas do Ministério da Saúde para o Programa Nacional de DST – Aids até 2006.
Terão prioridade mulheres, pessoas de baixa renda, jovens e população vulnerável, como usuários de drogas injetáveis e profissionais do sexo. Entre as mulheres, por exemplo, a epidemia cresce nove vezes mais se comparada aos homens, enquanto a queda da mortalidade é menor.
O governo pretende reduzir a incidência de aids de 15 casos por 100 mil habitantes ao ano para dez registros por 100 mil. Estima-se que haja cerca de 600 mil pessoas infectadas pelo HIV, sendo que pelo menos a metade não sabe que é portadora do vírus.
Para atingir essa meta, o ministério pretende garantir assistência aos soropositivos, ampliar o diagnóstico e elevar o consumo de preservativo de 550 milhões de unidades/ano para 1,2 bilhão.
O governo prevê a instalação de uma fábrica de preservativos no Acre para garantir a ampliação da produção. Prepara ainda uma série de medidas para reduzir o valor do produto e fará distribuição em escolas. "Hoje a distribuição encarece o preservativo. Estamos estudando formas de reduzir impostos e custo da embalagem para que a unidade saia por até R$ 0,25", afirmou Alexandre Grangeiro, novo coordenador do Programa Nacional de DST–Aids.
Outras duas metas são diminuir a mortalidade de doentes com aids de 50% para 35% e aumentar os exames de 1,8 milhão de testes/ano para 4,5 milhões.
Governo lança projeto de distribuição de preservativo a jovens nas escolas
BRASÍLIA. O Ministério da Saúde vai implantar um programa-piloto de distribuição de preservativos em escolas de ensino médio. O projeto vai ser testado em cinco municípios ainda este ano. A Coordenação Nacional de Doenças Sexualmente Transmissíveis e Aids (DST/Aids) selecionou as cidades de São Paulo, Curitiba, São José do Rio Preto (SP) e Rio Branco. Segundo a chefe da unidade de prevenção da coordenação de DST/Aids, Denise Doneda, não haverá distribuição aleatória de preservativos.
A idéia do governo é estimular as escolas a implantar programas que debatam com os jovens os temas que mais os afligem. Entre esses temas está a sexualidade. O programa vem sendo discutido com o Ministério da Educação.
- Nossa idéia não é pura e simplesmente distribuir preservativos. Queremos fazer um trabalho vinculado ao projeto pedagógico - disse Denise.
Segundo ela, as escolas que desenvolverem o projeto escolherão um local para que os jovens interessados possam ter acesso facilitado aos preservativos. Denise disse que o local pode ser o grêmio de estudantil, a direção, a sala de um professor ou funcionário. A escolha caberá à escola, sempre levando em conta que a entrega do preservativo vai estar associada ao programa de esclarecimento aos jovens sobre sexualidade e os problemas das doenças sexualmente transmissíveis.
Denise afirmou que os municípios selecionados já têm algum tipo de projeto destinado a informar os jovens. Ela citou o caso de São Paulo, onde já é feito um trabalho preventivo sobre doenças sexualmente transmissíveis, e Curitiba, onde uma ONG faz esse trabalho nas escolas públicas.
A partir das experiências nessas cinco localidades, o governo poderá expandir o programa. Doneda avisa que nada será imposto:
Thursday, June 05, 2003:::
JORNAL DA TARDE (SP) 05/06/03 SP - VARIEDADES
O AQUECIMENTO DA PARADA GAY, COM FILMES E SHOWS
Este ano são esperadas 800 mil pessoas na Avenida Paulista, no dia 22. Mas a programação do mês gay já está no ar
O comercial mostrava uma mulher paquerando um homem num bar.
Quando ela finalmente o abordava, o rapaz dava uma desmunhecada. O slogan do carro que estava sendo vendido dizia que - ao contrário do que o homossexual acabara da fazer - o veículo não decepcionava. A Associação do Orgulho de Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros (GLBT) de São Paulo considerou a propaganda homofóbica e pediu à Volkswagen e à agência de publicidade Almap uma retratação. Conseguiu mais: as empresas doaram R$ 300 mil para patrocinar vários eventos em comemoração ao mês do orgulho gay.
A vasta programação deste ano é um feito inédito da associação, que organiza há sete anos a Parada do Orgulho Gay. Normalmente com verba restrita, a GLBT comemora o orçamento de R$ 600 mil para este ano. Além do dinheiro da montadora e da agência, o evento conta também com patrocínio da Prefeitura de São Paulo.
"Quisemos utilizar esta quantia em eventos culturais para mostrar nossa vitória sobre o preconceito da propaganda e também para levar à sociedade a discussão sobre os homossexuais", diz o presidente da GLBT, Nelson Pereira Matias.
No Centro Cultural São Paulo haverá shows diversos e exposição de fotografias e charges. A Cinemateca preparou um programa especial com filmes que abordem a homossexualidade, entre eles 'O Beijo da Mulher Aranha', de Hector Babenco, 'Vera', de Sérgio Toledo, e 'Jenipapo', de Monique Gardenberg.
No TUSP, será realizado um ciclo de leituras de peças inéditas escritas por Sérgio Roveri, Fernando Bonassi, Antonio Rogério Toscano, Newton Moreno, Mário Viana e Sérgio Pires. Após a leitura, serão realizados debates. Na Biblioteca Mário de Andrade acontece entre os dias 9 e 13 um ciclo de debates sobre homossexualidade.
Haverá também atividades esportivas, o Gay Day no parque Hopi Hari e, claro, a Parada Gay na avenida Paulista, no dia 22. No ano passado, a parada atraiu 500 mil pessoas e, neste ano, são esperadas 800 mil. A prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, é presença garantida. Os organizadores vão a Brasília, na quarta-feira, para protocolar um convite formal para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Todas as atividades terão como base o tema da parada deste ano, que é 'Construindo Políticas Públicas'. Nelson Matias diz que o verbo no gerúndio indica que o universo social para os homossexuais ainda está em construção no Brasil. "Este tema precisa ser abordado porque nós existimos como contribuintes que pagam suas contas e cumprem seu dever, mas não temos direitos garantidos". Ele lembra que o projeto de união civil entre pessoas do mesmo sexo ainda não foi aprovado e que os gays não contam com uma lei contra crimes de ódio, por exemplo. "Há estatutos de defesa da criança e do adolescente, leis de proteção à mulher e ao índio, mas nada parecido para os homossexuais".
Este ano são esperadas 800 mil pessoas na Avenida Paulista, no dia 22. Mas a programação do mês gay já está no ar
O comercial mostrava uma mulher paquerando um homem num bar.
Quando ela finalmente o abordava, o rapaz dava uma desmunhecada. O slogan do carro que estava sendo vendido dizia que - ao contrário do que o homossexual acabara da fazer - o veículo não decepcionava. A Associação do Orgulho de Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros (GLBT) de São Paulo considerou a propaganda homofóbica e pediu à Volkswagen e à agência de publicidade Almap uma retratação. Conseguiu mais: as empresas doaram R$ 300 mil para patrocinar vários eventos em comemoração ao mês do orgulho gay.
A vasta programação deste ano é um feito inédito da associação, que organiza há sete anos a Parada do Orgulho Gay. Normalmente com verba restrita, a GLBT comemora o orçamento de R$ 600 mil para este ano. Além do dinheiro da montadora e da agência, o evento conta também com patrocínio da Prefeitura de São Paulo.
"Quisemos utilizar esta quantia em eventos culturais para mostrar nossa vitória sobre o preconceito da propaganda e também para levar à sociedade a discussão sobre os homossexuais", diz o presidente da GLBT, Nelson Pereira Matias.
No Centro Cultural São Paulo haverá shows diversos e exposição de fotografias e charges. A Cinemateca preparou um programa especial com filmes que abordem a homossexualidade, entre eles 'O Beijo da Mulher Aranha', de Hector Babenco, 'Vera', de Sérgio Toledo, e 'Jenipapo', de Monique Gardenberg.
No TUSP, será realizado um ciclo de leituras de peças inéditas escritas por Sérgio Roveri, Fernando Bonassi, Antonio Rogério Toscano, Newton Moreno, Mário Viana e Sérgio Pires. Após a leitura, serão realizados debates. Na Biblioteca Mário de Andrade acontece entre os dias 9 e 13 um ciclo de debates sobre homossexualidade.
Haverá também atividades esportivas, o Gay Day no parque Hopi Hari e, claro, a Parada Gay na avenida Paulista, no dia 22. No ano passado, a parada atraiu 500 mil pessoas e, neste ano, são esperadas 800 mil. A prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, é presença garantida. Os organizadores vão a Brasília, na quarta-feira, para protocolar um convite formal para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Todas as atividades terão como base o tema da parada deste ano, que é 'Construindo Políticas Públicas'. Nelson Matias diz que o verbo no gerúndio indica que o universo social para os homossexuais ainda está em construção no Brasil. "Este tema precisa ser abordado porque nós existimos como contribuintes que pagam suas contas e cumprem seu dever, mas não temos direitos garantidos". Ele lembra que o projeto de união civil entre pessoas do mesmo sexo ainda não foi aprovado e que os gays não contam com uma lei contra crimes de ódio, por exemplo. "Há estatutos de defesa da criança e do adolescente, leis de proteção à mulher e ao índio, mas nada parecido para os homossexuais".
Monday, May 19, 2003:::
O ESTADO DE SÃO PAULO 16/05/03 CIDADES
Brasil é um dos maiores consumidores de maconha
Encontro reúne especialistas para discutir avanço no tratamento da droga
RENATO LOMBARDI
Uma pesquisa da Organização das Nações Unidas (ONU) revela que o brasileiro está entre os maiores consumidores de maconha do mundo. Os meninos de rua são os que mais experimentam. Outra pesquisa feita com universitários, em São Paulo, revelou que 26% já usaram maconha. No caso dos estudantes do 1.º e 2.º graus, 4% admitiram terem experimentado maconha pelo menos uma vez.
Um levantamento da Polícia Federal indica que o Brasil é o principal comprador da maconha produzida no Paraguai, um dos maiores produtores do mundo. Num trabalho preparado sobre a maconha, o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), revela que a droga provoca dependência e causa danos à saúde. "A pessoa sente insônia, náusea, dores musculares, ansiedade, inquietação, suor, diarréia, falta de apetite e vontade intensa de usar a droga", diz Laranjeira.
Para abordar temas sobre a maconha - que é a droga mais usada no mundo -, como inovações e dificuldades no tratamento de consumidores e as alterações físicas, a Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (Uniad), da Unifesp, vai reunir hoje, em São Paulo, Laranjeira e outros seis maiores especialistas brasileiros no assunto.
O professor Robert Stephens, da Virginia Polytechnic Institute and State University, dos Estados Unidos, também vai participar. Sociólogo e pós-doutorado em dependência pela University of Washington - ele escreveu artigos sobre tratamento da maconha e vai falar sobre o Marijuana Treatment Project (MTP), um estudo americano multicêntrico para testar a efetividade de tratamentos breves para usuários da droga. Stephens é o criador da escola para problemas com a maconha.
Exclusivo - Vinculada ao Departamento de Psiquiatria da Unifesp, a Uniad criou em 2000, o primeiro ambulatório destinado aos dependentes de maconha, separado do atendimento prestado aos dependentes de cocaína e álcool. A coordenadora do ambulatório, Flávia Jungerman, que também participará do evento, disse que a separação no atendimento é importante porque cada grupo passa por um tipo de complicação social diferente.
"Dificilmente um dependente de maconha vai roubar um carro para comprar a droga, como é comum acontecer com dependentes de cocaína." De acordo com ela, o consumidor de maconha vai mal na escola, não consegue trabalhar e tem dificuldade de concentração.
O ambulatório da Uniad, específico para dependentes de maconha, atendeu desde a inauguração mais de 300 pacientes. Uma análise da mudança do perfil do consumidor desse tipo de entorpecente constatou que há menos jovens se envolvendo e o uso da droga é mais longo e intenso. Revelou ainda que para muitos não foi o primeiro tratamento. Mais da metade dos atendidos usava maconha havia mais de cinco anos.
Outra constatação foi que, entre os atendidos, uma grande parte usou outro tipo de droga e o consumo de álcool é freqüente. Dos que procuraram a Uniad, 44% tiveram algum contato com a polícia.
Encontro reúne especialistas para discutir avanço no tratamento da droga
RENATO LOMBARDI
Uma pesquisa da Organização das Nações Unidas (ONU) revela que o brasileiro está entre os maiores consumidores de maconha do mundo. Os meninos de rua são os que mais experimentam. Outra pesquisa feita com universitários, em São Paulo, revelou que 26% já usaram maconha. No caso dos estudantes do 1.º e 2.º graus, 4% admitiram terem experimentado maconha pelo menos uma vez.
Um levantamento da Polícia Federal indica que o Brasil é o principal comprador da maconha produzida no Paraguai, um dos maiores produtores do mundo. Num trabalho preparado sobre a maconha, o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), revela que a droga provoca dependência e causa danos à saúde. "A pessoa sente insônia, náusea, dores musculares, ansiedade, inquietação, suor, diarréia, falta de apetite e vontade intensa de usar a droga", diz Laranjeira.
Para abordar temas sobre a maconha - que é a droga mais usada no mundo -, como inovações e dificuldades no tratamento de consumidores e as alterações físicas, a Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (Uniad), da Unifesp, vai reunir hoje, em São Paulo, Laranjeira e outros seis maiores especialistas brasileiros no assunto.
O professor Robert Stephens, da Virginia Polytechnic Institute and State University, dos Estados Unidos, também vai participar. Sociólogo e pós-doutorado em dependência pela University of Washington - ele escreveu artigos sobre tratamento da maconha e vai falar sobre o Marijuana Treatment Project (MTP), um estudo americano multicêntrico para testar a efetividade de tratamentos breves para usuários da droga. Stephens é o criador da escola para problemas com a maconha.
Exclusivo - Vinculada ao Departamento de Psiquiatria da Unifesp, a Uniad criou em 2000, o primeiro ambulatório destinado aos dependentes de maconha, separado do atendimento prestado aos dependentes de cocaína e álcool. A coordenadora do ambulatório, Flávia Jungerman, que também participará do evento, disse que a separação no atendimento é importante porque cada grupo passa por um tipo de complicação social diferente.
"Dificilmente um dependente de maconha vai roubar um carro para comprar a droga, como é comum acontecer com dependentes de cocaína." De acordo com ela, o consumidor de maconha vai mal na escola, não consegue trabalhar e tem dificuldade de concentração.
O ambulatório da Uniad, específico para dependentes de maconha, atendeu desde a inauguração mais de 300 pacientes. Uma análise da mudança do perfil do consumidor desse tipo de entorpecente constatou que há menos jovens se envolvendo e o uso da droga é mais longo e intenso. Revelou ainda que para muitos não foi o primeiro tratamento. Mais da metade dos atendidos usava maconha havia mais de cinco anos.
Outra constatação foi que, entre os atendidos, uma grande parte usou outro tipo de droga e o consumo de álcool é freqüente. Dos que procuraram a Uniad, 44% tiveram algum contato com a polícia.
Monday, May 12, 2003:::
TRIBUNA DE MINAS (MG) 12/05/03 CIDADES
Cristiana Viana
Repórter
Homens mentem sobre doenças sexuais Dos 1.939 pacientes que procuraram o Centro de Apoio Sorológico (Coas) no ano passado e tiveram algum tipo de Doença Sexualmente Transmissível (DST) diagnosticada, 1.843 eram mulheres, o que representa 95% das notificações. Os registros, apesar de subnotificados - levando-se em consideração os fatos de que grande parte das pessoas não busca atendimento médico e que as doenças são assintomáticas - revelam a preocupante realidade sobre o comportamento sexual do juizforano. “Os homens mentem, omitem e negam a promiscuidade e ignoram o uso do preservativo. Sem dúvida, são eles os principais responsáveis pela contaminação das mulheres”, alerta o chefe do Serviço de Prevenção do Câncer Cérvico-uterino e de DST do Departamento de Saúde da Mulher, Elídio Lana.
A constatação de Lana é confirmada por recente pesquisa do Ministério da Saúde, feita pela Coordenação de Aids, que desvela a atitude machista como risco permanente para a população feminina. “A situação de Juiz de Fora é a mesma do restante do país”, ressalta o especialista. Pelo levantamento nacional, 77% dos homens afirmam nunca terem tido qualquer DST, enquanto que 62% das mulheres admitem já ter se contaminado através do ato sexual. Outra revelação é a procura, por parte dos homens, de tratamento em farmácias. “Esta atitude é comprovada. O doente toma uma injeção de antibiótico, tem uma aparente melhora, mascara DSTs e até mesmo Aids e continua transmitindo os males potencialmente a diversas parceiras.”
Cultura machistaA cultura machista chega ao ponto de fazer com que um urologista, contratado especialmente para atender homens, fique ocioso no Departamento de Saúde da Mulher. “Providenciamos o especialista exatamente para orientar e tratar o público masculino. Ninguém vai”, conta Lana, destacando ter mandado ofício, no dia 30 de abril, a todas as unidades básicas de saúde (UBSs) informando sobre a disponibilidade do médico e a necessidade de encaminhamento dos casos diagnosticados.
Neste ponto, Juiz de Fora está muito à frente das outras cidades brasileiras, por ser pioneira na assistência dispensada ao sexo masculino. De acordo com o Ministério da Saúde, a notificação de DST não é compulsória, e não há serviços especializados para homens na rede pública de saúde. Márcia Duarte Lage, assessora da Coordenação Nacional de DST/Aids, lembra, ainda, o grande incentivo dado às mulheres a fazer o exame preventivo Papanicoloau. “O público feminino acaba sendo triado e, quando uma DST é detectada, a paciente recebe as orientações e o acompanhamento necessários.”
‘Nenhum homem trai e admite’
Depois de dez anos de casamento, o administrador de empresas, P., 30 anos, decidiu "aproveitar a vida". Um mês após a separação, ele passou a ter relacionamentos sexuais com diversas mulheres. Proteção? Camisinha? "Só quando eu lembrava ou dava tempo", conta. "A satisfação da conquista é grande. Queria provar a mim mesmo, aos meus amigos e familiares que poderia ter todas as transas que eu desejasse." E foi na promiscuidade que P. foi contaminado pelo vírus HPV.
Até chegar ao tratamento, que culminou em cirurgia, o administrador de empresas relata ter sentido dores, ardência e manifestação de verrugas no pênis. Mesmo assim, continuava tendo vida sexual ativa. "Um dia fiquei assustado e amedrontado com as feridas. Pensei que pudesse ter Aids. Somente por isto, procurei ajuda de um médico. Neste dia, tive a certeza de ter passado o HPV para dezenas de mulheres."
Seis meses depois da cirurgia para a retirada da lesão, P. voltou a representar um risco para o público feminino, principalmente de Juiz de Fora. Isto porque, segundo ele, mantém relações sexuais sem camisinha com a namorada e com as amantes que surgirem na vida dele. "Minha namorada também tem o HPV, transmitido por mim. Ela está em tratamento e tem que aceitar as minhas puladas de cerca. É claro que jamais contarei esta história para a garota que estou ficando. Tomo banho e fico limpinho."
A irresponsabilidade de P. faz parte da rotina da maioria dos homens. "Nenhum homem trai e admite. Ele nega, nega e nega. O medo de ser descoberto ainda faz com que a doença seja subnotificada e rapidamente disseminada", afirma o chefe do Serviço de Prevenção do Câncer Cérvico-uterino e DST, Elídio Lana.
O médico salienta ainda a inexistência de uma busca ativa, por parte da mulher, em relação aos parceiros sexuais. "Muitas vezes, a paciente é contaminada e nem sabe por quem." O ideal, de acordo com Lana, seria a mulher infectada relatar todos os homens possivelmente transmissores da sua moléstia. "Se a mulher se preocupasse com sua saúde, buscaria os parceiros e os comunicaria sobre a doença. Tenho uma paciente que, sabendo ter adquirido o vírus HIV, reuniu os três homens com quem teve relações sexuais e deu notícia: um de vocês me passou Aids e quero saber quem foi."
o administrador concedeu entrevista com a condição de preservar seu nome.
Camisinha é método mais eficiente A camisinha continua sendo o método mais eficaz de proteção e prevenção não só contra doenças sexualmente transmissíveis, mas contra Aids, todavia, o uso ainda é pequeno. No Departamento de Saúde da Mulher, são distribuídos preservativos às pacientes cadastradas. Lana esclarece que qualquer mulher pode fazer o registro e receber as camisinhas mensalmente. “Infelizmente, são poucas que utilizam o benefício.”
Campanhas de massa
O Governo federal faz investimento anual de R$ 180 milhões em ações de prevenção e tratamento. Por ano, 250 milhões de preservativos masculinos e quatro milhões de preservativos femininos são distribuídos. Campanhas de massa vêm sendo promovidas desde 1999, além de treinamentos para profissionais em 1.200 unidades de saúde para atendimento das DST. Márcia Lage, assessora da Coordenação Nacional de DST/Aids, reitera também que 600 mil kits de teste rápido de sífilis e HIV em gestantes são oferecidos aos pacientes do SUS. Além disto, no pré-natal e na implantação do parto humanitário na rede pública de saúde, fica garantido o mínimo de seis consultas às gestantes, com testagem convencional do HIV e todas as DST. “É impressionante, mas, realmente só adoece quem não se cuida.”
DST no mundo
340 milhões de novos casos/ano
EUA: 12 milhões casos/ano
África Sub-sahariana: 69 milhões de pessoas com DST (25% da população sexualmente ativa)
Sul e sudeste asiático: 151 milhões de pessoas (15% da população sexualmente ativa)
DST no Brasil
26 milhões de pessoas têm pelo menos uma DST
30 milhões de infecções (considerando uma ou mais infecções por pessoa)
HPV, Herpes, Sífilis, Clamídia, Gonorréia e Tricomoníase são as principais ocorrências
Estimativas podem estar superestimadas, por falta de estudos precisos
Primeiro estudo nacional está em execução com 6 estados (RS, SP, RJ, GO, CE e AM)
Resultados serão divulgados ainda em 2003
Fonte: Coordenação de Aids/DST - Ministério da Saúde
Tuesday, May 06, 2003:::
ZERO HORA (RS) 06/05/03 GERAL
Drogas
- O usuário é culpado, sim -
E. M., 24 anos, começou com a maconha, aos 10. Experimentou cocaína, crack, LSD, anfetaminas e, salienta, álcool. Para alimentar o vício, assaltava lotéricas, restaurantes e farmácias depois do trabalho, onde ganhava R$ 600 por mês, gastos em dois dias com drogas. Garante ter largado o vício há um ano, depois de um mês no Presídio Central e de nove meses em uma fazenda de recuperação que exigia abstinência. Como parte da pena de três anos de serviços comunitários, ele cozinha para outros dependentes químicos. Acredita que a descriminação do uso de drogas vai disparar o consumo, mas defende a distribuição de seringas.
Zero Hora - A descriminação das drogas pode fazer com que mais pessoas passem pela tua experiência?
E.M.- Mesmo que o cara pego consumindo não seja preso e julgado, ninguém gosta de ir pra delegacia e levar "concha" (tapa na orelha) dos brigadianos. Ninguém gosta da humilhação, e isso impede o consumo.
ZH - Então tu és totalmente contra a descriminação?
E.M. - Desculpa a palavra, mas fazer isso é uma m... Vai aumentar a procura. Se 10 usuários que freqüentam uma boca de fumo sabendo que podem ser presos numa blitz, só três vão comprar. Se não tiver risco de ser pego, os 10 vão.
ZH - A idéia é desfazer a atração que a droga desperta por ser proibida, partindo do princípio de que o usuário só prejudica a si.
E.M. - Mesmo ele usando sozinho, não prejudica só ele. O usuário é culpado sim, pois prejudica primeiro a família e depois a sociedade. Minha mãe só hoje deita a cabeça no travesseiro e dorme. Ela tem 55 anos, mas parece que tem 65, porque eu passei 13 anos na droga.
ZH - E quanto à distribuição de seringas?
E.M. - Isso até foi até um negócio bom. Se o governo não der seringa, o cara usa o mês todo a mesma e divide com quatro ou cinco pessoas. Aí gastam milhões com remédios para Aids. Com certeza, abandonar o vício ninguém vai, ainda mais sabendo que ali na esquina um cara vai dar a seringa. Mas se não receber a seringa não vai largar também.
A redução de danos no mundo
HOLANDA
A política para redução de danos começou nos anos 70, diferenciando o tratamento a usuários de drogas de risco inaceitável (heroína, cocaína, anfetaminas) daquelas com riscos menores (maconha e haxixe). As cafeterias que vendem drogas legalmente surgiram a partir daí. Em 1984, foi lançado o primeiro programa de troca de seringas, em Amsterdã. Entre os efeitos da política tolerante, estudiosos ressaltam a estabilidade no número de dependentes e a baixa mortalidade entre os usuários. Estudo mostrou que viciados em heroína que receberam metadona tiveram melhorias físicas, mentais e sociais de até 25%. O modelo holandês é criticado por países com políticas proibicionistas, e por cidadãos holandeses, que reclamam do "turismo das drogas".
INGLATERRA
Em Liverpool, o grande consumo de heroína na década de 80 levou à abertura, em 1985, de uma clínica para dependentes químicos.
A partir de 1986, programas de trocas de seringas foram estendidos e médicos passaram a prescrever heroína e metadona, em cigarro, ampola, de forma líquida ou aerossol.
A polícia apoiou diminuindo ações repressivas e encaminhando usuários a centros de redução de danos. Liverpool tinha a mais alta taxa de casos de dependência de drogas no país (1.718 por milhão de habitantes, enquanto a média nacional era de 288 por milhão). Hoje tem a segunda menor taxa do país em infecção pelo vírus da Aids entre usuários de drogas injetáveis.
ESTADOS UNIDOS
O uso de drogas injetáveis é o segundo mais grave comportamento de risco associado à Aids, ficando atrás, somente, do sexo sem proteção. Em 1993, o programa Clean Needles Now (Agulhas Limpas Agora) iniciou um trabalho com jovens de Hollywood e Los Angeles, com objetivo de reduzir as contaminações pelo HIV.
Naquele ano, no centro de Hollywood, uma casa foi transformada em centro de redução de danos, aberto a jovens que desejam trocar as ruas pelo espaço, onde trocam seringas e agulhas, recebem estojos com material esterilizado, têm programações culturais e atendimento médico e psicológico. Em 1995, 25% de todos os casos de Aids no país eram de usuários de drogas injetáveis.
FRANÇA
Os franceses se opõem a britânicos e norte-americanos, que prescrevem metadona no lugar da heroína, por entender que só manteriam a dependência dos usuários por outra droga, esta lícita. Só em 1994 a França começou um programa de redução de danos, com a troca de seringas e centros de apoio.
Os serviços foram criticados por defensores dos programas de redução de danos de outros países porque os centros franceses não funcionavam à noite e estavam distantes das áreas de concentração dos usuários e por elegerem metas utópicas para o sucesso do tratamento. Em 1997, a cidade de Marseille teve instalada uma máquina, como as de refrigerante, em que eram trocadas seringas usadas por novas.
AUSTRÁLIA
O governo adotou em 1985 a redução de danos. Sete anos mais tarde, ao ser sede da 3ª Conferência Internacional de Redução de Danos, o ministério dos Serviços de Saúde se posicionou pela redução dos efeitos prejudiciais das drogas. Na época, o governo disse que não considerava uma sociedade livre de drogas meta possível de ser alcançada. A troca de 10 milhões de agulhas e seringas em 1991, a um custo de U$ 8 milhões para o governo, preveniu 2,9 mil novos casos de Aids, poupando US$ 220 milhões. Atualmente, tabaco e álcool são considerados drogas ilícitas no país, por trazer os maiores prejuízos.
ALEMANHA
Em 1990, um programa de redução de danos foi iniciado em Frankfurt. Foram incluídos serviços como unidades móveis para aconselhamento e troca de seringas, troca do material usado também em farmácias, fornecimento de metadona, abrigos para pernoite de usuários, quatro centros de urgência para tratamento médico e três narcossalas, ambientes para o consumo de drogas, com conforto, higiene e assistência médica e psicológica. O programa foi visto por outros países europeus como modelo. Na União Européia, os casos de contaminação pela Aids entre usuários de drogas injetáveis decresceram.
SUÍÇA
Em 1988, o parque Platzpitz, em Zurique, tornou-se local de encontro de quase 3 mil usuários de drogas pesadas e traficantes. Para conter o avanço da Aids, o governo criou um programa que inclusive suspendia a repressão policial. Em 1992, o parque foi fechado na busca de alternativa menos traumática à comunidade e aos usuários: houve descentralização dos serviços e disponibilização de heroína e outras drogas injetáveis por prescrição médica. O programa foi levado a oito cidades, com acesso a heroína, morfina e metadona e serviços de alojamento e auxílio na busca de emprego.
CANADÁ
O governo mantém serviços para trocas de seringas, fornecimento de metadona, prevenção de problemas com álcool (programas de consumo moderado) e educação voltada para a saúde do usuário. O princípio básico da filosofia canadense é a aceitação do uso de drogas como normal, associado a benefícios e riscos, com a idéia de que o uso não pode ser eliminado, mas que os danos podem ser diminuídos. A redução de danos foi construída sobre uma abordagem científica da saúde pública. A educação deve ser isenta de julgamentos, requerendo respeito à liberdade de os usuários de drogas tomarem suas próprias decisões.
E. M., 24 anos, começou com a maconha, aos 10. Experimentou cocaína, crack, LSD, anfetaminas e, salienta, álcool. Para alimentar o vício, assaltava lotéricas, restaurantes e farmácias depois do trabalho, onde ganhava R$ 600 por mês, gastos em dois dias com drogas. Garante ter largado o vício há um ano, depois de um mês no Presídio Central e de nove meses em uma fazenda de recuperação que exigia abstinência. Como parte da pena de três anos de serviços comunitários, ele cozinha para outros dependentes químicos. Acredita que a descriminação do uso de drogas vai disparar o consumo, mas defende a distribuição de seringas.
Zero Hora - A descriminação das drogas pode fazer com que mais pessoas passem pela tua experiência?
E.M.- Mesmo que o cara pego consumindo não seja preso e julgado, ninguém gosta de ir pra delegacia e levar "concha" (tapa na orelha) dos brigadianos. Ninguém gosta da humilhação, e isso impede o consumo.
ZH - Então tu és totalmente contra a descriminação?
E.M. - Desculpa a palavra, mas fazer isso é uma m... Vai aumentar a procura. Se 10 usuários que freqüentam uma boca de fumo sabendo que podem ser presos numa blitz, só três vão comprar. Se não tiver risco de ser pego, os 10 vão.
ZH - A idéia é desfazer a atração que a droga desperta por ser proibida, partindo do princípio de que o usuário só prejudica a si.
E.M. - Mesmo ele usando sozinho, não prejudica só ele. O usuário é culpado sim, pois prejudica primeiro a família e depois a sociedade. Minha mãe só hoje deita a cabeça no travesseiro e dorme. Ela tem 55 anos, mas parece que tem 65, porque eu passei 13 anos na droga.
ZH - E quanto à distribuição de seringas?
E.M. - Isso até foi até um negócio bom. Se o governo não der seringa, o cara usa o mês todo a mesma e divide com quatro ou cinco pessoas. Aí gastam milhões com remédios para Aids. Com certeza, abandonar o vício ninguém vai, ainda mais sabendo que ali na esquina um cara vai dar a seringa. Mas se não receber a seringa não vai largar também.
A redução de danos no mundo
HOLANDA
A política para redução de danos começou nos anos 70, diferenciando o tratamento a usuários de drogas de risco inaceitável (heroína, cocaína, anfetaminas) daquelas com riscos menores (maconha e haxixe). As cafeterias que vendem drogas legalmente surgiram a partir daí. Em 1984, foi lançado o primeiro programa de troca de seringas, em Amsterdã. Entre os efeitos da política tolerante, estudiosos ressaltam a estabilidade no número de dependentes e a baixa mortalidade entre os usuários. Estudo mostrou que viciados em heroína que receberam metadona tiveram melhorias físicas, mentais e sociais de até 25%. O modelo holandês é criticado por países com políticas proibicionistas, e por cidadãos holandeses, que reclamam do "turismo das drogas".
INGLATERRA
Em Liverpool, o grande consumo de heroína na década de 80 levou à abertura, em 1985, de uma clínica para dependentes químicos.
A partir de 1986, programas de trocas de seringas foram estendidos e médicos passaram a prescrever heroína e metadona, em cigarro, ampola, de forma líquida ou aerossol.
A polícia apoiou diminuindo ações repressivas e encaminhando usuários a centros de redução de danos. Liverpool tinha a mais alta taxa de casos de dependência de drogas no país (1.718 por milhão de habitantes, enquanto a média nacional era de 288 por milhão). Hoje tem a segunda menor taxa do país em infecção pelo vírus da Aids entre usuários de drogas injetáveis.
ESTADOS UNIDOS
O uso de drogas injetáveis é o segundo mais grave comportamento de risco associado à Aids, ficando atrás, somente, do sexo sem proteção. Em 1993, o programa Clean Needles Now (Agulhas Limpas Agora) iniciou um trabalho com jovens de Hollywood e Los Angeles, com objetivo de reduzir as contaminações pelo HIV.
Naquele ano, no centro de Hollywood, uma casa foi transformada em centro de redução de danos, aberto a jovens que desejam trocar as ruas pelo espaço, onde trocam seringas e agulhas, recebem estojos com material esterilizado, têm programações culturais e atendimento médico e psicológico. Em 1995, 25% de todos os casos de Aids no país eram de usuários de drogas injetáveis.
FRANÇA
Os franceses se opõem a britânicos e norte-americanos, que prescrevem metadona no lugar da heroína, por entender que só manteriam a dependência dos usuários por outra droga, esta lícita. Só em 1994 a França começou um programa de redução de danos, com a troca de seringas e centros de apoio.
Os serviços foram criticados por defensores dos programas de redução de danos de outros países porque os centros franceses não funcionavam à noite e estavam distantes das áreas de concentração dos usuários e por elegerem metas utópicas para o sucesso do tratamento. Em 1997, a cidade de Marseille teve instalada uma máquina, como as de refrigerante, em que eram trocadas seringas usadas por novas.
AUSTRÁLIA
O governo adotou em 1985 a redução de danos. Sete anos mais tarde, ao ser sede da 3ª Conferência Internacional de Redução de Danos, o ministério dos Serviços de Saúde se posicionou pela redução dos efeitos prejudiciais das drogas. Na época, o governo disse que não considerava uma sociedade livre de drogas meta possível de ser alcançada. A troca de 10 milhões de agulhas e seringas em 1991, a um custo de U$ 8 milhões para o governo, preveniu 2,9 mil novos casos de Aids, poupando US$ 220 milhões. Atualmente, tabaco e álcool são considerados drogas ilícitas no país, por trazer os maiores prejuízos.
ALEMANHA
Em 1990, um programa de redução de danos foi iniciado em Frankfurt. Foram incluídos serviços como unidades móveis para aconselhamento e troca de seringas, troca do material usado também em farmácias, fornecimento de metadona, abrigos para pernoite de usuários, quatro centros de urgência para tratamento médico e três narcossalas, ambientes para o consumo de drogas, com conforto, higiene e assistência médica e psicológica. O programa foi visto por outros países europeus como modelo. Na União Européia, os casos de contaminação pela Aids entre usuários de drogas injetáveis decresceram.
SUÍÇA
Em 1988, o parque Platzpitz, em Zurique, tornou-se local de encontro de quase 3 mil usuários de drogas pesadas e traficantes. Para conter o avanço da Aids, o governo criou um programa que inclusive suspendia a repressão policial. Em 1992, o parque foi fechado na busca de alternativa menos traumática à comunidade e aos usuários: houve descentralização dos serviços e disponibilização de heroína e outras drogas injetáveis por prescrição médica. O programa foi levado a oito cidades, com acesso a heroína, morfina e metadona e serviços de alojamento e auxílio na busca de emprego.
CANADÁ
O governo mantém serviços para trocas de seringas, fornecimento de metadona, prevenção de problemas com álcool (programas de consumo moderado) e educação voltada para a saúde do usuário. O princípio básico da filosofia canadense é a aceitação do uso de drogas como normal, associado a benefícios e riscos, com a idéia de que o uso não pode ser eliminado, mas que os danos podem ser diminuídos. A redução de danos foi construída sobre uma abordagem científica da saúde pública. A educação deve ser isenta de julgamentos, requerendo respeito à liberdade de os usuários de drogas tomarem suas próprias decisões.
E. M., 24 anos, começou com a maconha, aos 10. Experimentou cocaína, crack, LSD, anfetaminas e, salienta, álcool. Para alimentar o vício, assaltava lotéricas, restaurantes e farmácias depois do trabalho, onde ganhava R$ 600 por mês, gastos em dois dias com drogas. Garante ter largado o vício há um ano, depois de um mês no Presídio Central e de nove meses em uma fazenda de recuperação que exigia abstinência. Como parte da pena de três anos de serviços comunitários, ele cozinha para outros dependentes químicos. Acredita que a descriminação do uso de drogas vai disparar o consumo, mas defende a distribuição de seringas.
Zero Hora - A descriminação das drogas pode fazer com que mais pessoas passem pela tua experiência?
E.M.- Mesmo que o cara pego consumindo não seja preso e julgado, ninguém gosta de ir pra delegacia e levar "concha" (tapa na orelha) dos brigadianos. Ninguém gosta da humilhação, e isso impede o consumo.
ZH - Então tu és totalmente contra a descriminação?
E.M. - Desculpa a palavra, mas fazer isso é uma m... Vai aumentar a procura. Se 10 usuários que freqüentam uma boca de fumo sabendo que podem ser presos numa blitz, só três vão comprar. Se não tiver risco de ser pego, os 10 vão.
ZH - A idéia é desfazer a atração que a droga desperta por ser proibida, partindo do princípio de que o usuário só prejudica a si.
E.M. - Mesmo ele usando sozinho, não prejudica só ele. O usuário é culpado sim, pois prejudica primeiro a família e depois a sociedade. Minha mãe só hoje deita a cabeça no travesseiro e dorme. Ela tem 55 anos, mas parece que tem 65, porque eu passei 13 anos na droga.
ZH - E quanto à distribuição de seringas?
E.M. - Isso até foi até um negócio bom. Se o governo não der seringa, o cara usa o mês todo a mesma e divide com quatro ou cinco pessoas. Aí gastam milhões com remédios para Aids. Com certeza, abandonar o vício ninguém vai, ainda mais sabendo que ali na esquina um cara vai dar a seringa. Mas se não receber a seringa não vai largar também.
A redução de danos no mundo
HOLANDA
A política para redução de danos começou nos anos 70, diferenciando o tratamento a usuários de drogas de risco inaceitável (heroína, cocaína, anfetaminas) daquelas com riscos menores (maconha e haxixe). As cafeterias que vendem drogas legalmente surgiram a partir daí. Em 1984, foi lançado o primeiro programa de troca de seringas, em Amsterdã. Entre os efeitos da política tolerante, estudiosos ressaltam a estabilidade no número de dependentes e a baixa mortalidade entre os usuários. Estudo mostrou que viciados em heroína que receberam metadona tiveram melhorias físicas, mentais e sociais de até 25%. O modelo holandês é criticado por países com políticas proibicionistas, e por cidadãos holandeses, que reclamam do "turismo das drogas".
INGLATERRA
Em Liverpool, o grande consumo de heroína na década de 80 levou à abertura, em 1985, de uma clínica para dependentes químicos.
A partir de 1986, programas de trocas de seringas foram estendidos e médicos passaram a prescrever heroína e metadona, em cigarro, ampola, de forma líquida ou aerossol.
A polícia apoiou diminuindo ações repressivas e encaminhando usuários a centros de redução de danos. Liverpool tinha a mais alta taxa de casos de dependência de drogas no país (1.718 por milhão de habitantes, enquanto a média nacional era de 288 por milhão). Hoje tem a segunda menor taxa do país em infecção pelo vírus da Aids entre usuários de drogas injetáveis.
ESTADOS UNIDOS
O uso de drogas injetáveis é o segundo mais grave comportamento de risco associado à Aids, ficando atrás, somente, do sexo sem proteção. Em 1993, o programa Clean Needles Now (Agulhas Limpas Agora) iniciou um trabalho com jovens de Hollywood e Los Angeles, com objetivo de reduzir as contaminações pelo HIV.
Naquele ano, no centro de Hollywood, uma casa foi transformada em centro de redução de danos, aberto a jovens que desejam trocar as ruas pelo espaço, onde trocam seringas e agulhas, recebem estojos com material esterilizado, têm programações culturais e atendimento médico e psicológico. Em 1995, 25% de todos os casos de Aids no país eram de usuários de drogas injetáveis.
FRANÇA
Os franceses se opõem a britânicos e norte-americanos, que prescrevem metadona no lugar da heroína, por entender que só manteriam a dependência dos usuários por outra droga, esta lícita. Só em 1994 a França começou um programa de redução de danos, com a troca de seringas e centros de apoio.
Os serviços foram criticados por defensores dos programas de redução de danos de outros países porque os centros franceses não funcionavam à noite e estavam distantes das áreas de concentração dos usuários e por elegerem metas utópicas para o sucesso do tratamento. Em 1997, a cidade de Marseille teve instalada uma máquina, como as de refrigerante, em que eram trocadas seringas usadas por novas.
AUSTRÁLIA
O governo adotou em 1985 a redução de danos. Sete anos mais tarde, ao ser sede da 3ª Conferência Internacional de Redução de Danos, o ministério dos Serviços de Saúde se posicionou pela redução dos efeitos prejudiciais das drogas. Na época, o governo disse que não considerava uma sociedade livre de drogas meta possível de ser alcançada. A troca de 10 milhões de agulhas e seringas em 1991, a um custo de U$ 8 milhões para o governo, preveniu 2,9 mil novos casos de Aids, poupando US$ 220 milhões. Atualmente, tabaco e álcool são considerados drogas ilícitas no país, por trazer os maiores prejuízos.
ALEMANHA
Em 1990, um programa de redução de danos foi iniciado em Frankfurt. Foram incluídos serviços como unidades móveis para aconselhamento e troca de seringas, troca do material usado também em farmácias, fornecimento de metadona, abrigos para pernoite de usuários, quatro centros de urgência para tratamento médico e três narcossalas, ambientes para o consumo de drogas, com conforto, higiene e assistência médica e psicológica. O programa foi visto por outros países europeus como modelo. Na União Européia, os casos de contaminação pela Aids entre usuários de drogas injetáveis decresceram.
SUÍÇA
Em 1988, o parque Platzpitz, em Zurique, tornou-se local de encontro de quase 3 mil usuários de drogas pesadas e traficantes. Para conter o avanço da Aids, o governo criou um programa que inclusive suspendia a repressão policial. Em 1992, o parque foi fechado na busca de alternativa menos traumática à comunidade e aos usuários: houve descentralização dos serviços e disponibilização de heroína e outras drogas injetáveis por prescrição médica. O programa foi levado a oito cidades, com acesso a heroína, morfina e metadona e serviços de alojamento e auxílio na busca de emprego.
CANADÁ
O governo mantém serviços para trocas de seringas, fornecimento de metadona, prevenção de problemas com álcool (programas de consumo moderado) e educação voltada para a saúde do usuário. O princípio básico da filosofia canadense é a aceitação do uso de drogas como normal, associado a benefícios e riscos, com a idéia de que o uso não pode ser eliminado, mas que os danos podem ser diminuídos. A redução de danos foi construída sobre uma abordagem científica da saúde pública. A educação deve ser isenta de julgamentos, requerendo respeito à liberdade de os usuários de drogas tomarem suas próprias decisões.